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Amendoins e nós

Para Thiago, Gabi e Bruno

Parecia um saco de amendoim, era um dos presentes mais lindos que já recebi na vida. Não porque sou alucinada por oleaginosas. Porque sinto a gratidão se espalhando por mim, chego quase a acreditar que é física, de tão forte, mas isso já entendemos que não é.

Quando vi o saco de amendoim, entendi o maravilhoso caminho que nos levou a esse encontro. As coisas chegaram a um ponto que enquadrá-los numa caixinha da minha história se tornou tarefa impossível. Vocês não são meus amigos, meus amores. Ou melhor, são amigos, amores, vocês e nós juntos. Só não são meus, ufa! Somos juntos uma comunhão, um lembrete do que pode (e é inevitável) ser transformado, um chamado à essência, uma feliz sincronicidade de assistirmos nossos rios contemplarem o horizonte e nele ver um mar de amor a desaguarmos.

 

Amendoins de Ibiúna

Amendoins de Ibiúna

Quando vi o saco de amendoim, entendi coisas. Coisas que não me servem de nada a não ser me curvar, soltar e ser água. SOLTAR. Foi essa a palavra que ecoou na minha cabeça naquela noite tão difícil. Não soltar vocês, isso já era irrevogável. Me soltar. Soltar e perceber que faço parte. Soltar e aceitar que sou, sim, digna de receber os cuidados e demonstrações de afeto. Soltar e me unir. Soltar e me deixar ser amada por vocês, que tanto amo.

Esses amendoins me lembraram que vocês estão aqui, enquanto solto e me descasco. Nos descascamos. Nos fazemos carinho nesse percurso, por vezes doloroso. E lembro como são especiais. Não porque são melhores que outros. Mas porque são presentes da vida e isso merece toda celebração e gratidão.

Uma deliciosa manteiga de amendoim os aguarda aqui, nessa casa que é também de vocês.

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As lagartas que suportei

Outubro do ano passado eu e Danilo decidimos mudar de cidade e de estilo de vida. Saímos de São Paulo em busca de tranquilidade, menos trabalho, mais plantas e simplicidade. Chegamos em Jundiaí. Um mês depois, para comemorar o aniversário dele e mostrar a casa nova para os amigos, demos uma festa cheia de pessoas queridas, entre elas Giovane e Anai, um casal de amigos muito especial. Gi e Anai trouxeram presentes: limões, um vaso com babosa, outro com uma planta que diziam ser uma bela flor roxa e dicas de como cuidar daquela terra ainda tão seca e batida para começarmos a plantação.

Poucas semanas e algumas manhãs com enxada na mão depois, o boldo, o alecrim, o manjericão e o cravo que vieram da janela de um apartamento da cidade grande ganharam um lindo jardim ao lado da babosa, da flor roxa e de outras coisas que foram chegando aos poucos. Em janeiro veio a horta, alguns medicinais e até sementes de frutas brotaram. E a flor, aquela roxa, finalmente floresceu, exatamente no dia que Anai e Gi chegavam de viagem.

E foi assim por todos esses dias de verão. A cada manhã mais flores roxas no jardim. No final da tarde a maior parte delas caía no chão, voltava pra terra, algumas se fechavam, mas toda manhã tinha flor. Até que, na véspera do carnaval, percebemos a presença de umas cinco ou seis lagartas na planta. Como estávamos felizes com o ecossistema que se formava ali (formigas, abelhas, minhocas, cigarras) optamos por não tirá-las e em apenas um dia elas comeram quase todas as folhas. Desde então nenhuma flor apareceu. O desespero de ver a planta sem folhas ou flores nos fez optar pela retirada e planejamos como seria: o destino era a pracinha do bairro onde tinha mais opção para a folia dos bichinhos. O plano foi abortado por causa de uma quarta-feira de cinzas chuvosa.

Hoje o Sol voltou a iluminar o jardim e ali uma grande transformação acontecia: uma das lagartas estava pendurada no galho da planta e se contorcia em movimentos que nos remetia a algo doloroso, enquanto pequenas partes do seu corpo se soltavam e caiam no chão. Todas as outras, exceto aquela perdida no corredor, pareciam se preparar para o mesmo processo.

Casulo

Casulo

Que os poetas adoram metáforas com as borboletas nós já sabemos. Que o segredo é cuidar do jardim para que elas venham até nós ou que é preciso suportar duas ou três lagartas para conhecê-las, tudo isso já era sabido e, de tão clichê, ficou também esquecido. Às vezes precisamos ver essas transformações concretas e literais para encher novamente os poemas de sentindo. E nós ficamos ali, contemplando. Por lembrar das dores das mudanças, das ideias que morrem e do desconhecido que nasce, nos emocionamos.

Anai e Gi nos presentearam com uma lição. O que parecia um evento desastroso era só o caminho da vida, era o inevitável. Pode até parecer sentimentalismo barato, mas os casulos que se formam no nosso jardim encheram meu coração de esperança e gratidão. Que sejam bem-vindas as borboletas mensageiras!

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Chamam de instabilidade

“Aproveita que você é jovem”, “quando eu tinha sua idade também pensava assim”, quem nunca?? E sempre que eu ouvia a segunda frase, questionava em silêncio: “por que não pensa mais?”. A vida vai passando pelos vinte e tantos anos e você olha para o que as pessoas te cobram e valorizam. Fica mais fácil de entender.

A ideia é: envelhecemos, responsabilidades mudam e estamos fadados a precisar de estrutura e estabilidade. É o que dizem por aí… Mas que cargas d’água é isso?

Um cara, hipotético, de uns trinta anos, com filho, sem carro, que vive mudando de casa e emprego, já foi casado mais de uma vez e se joga em um relacionamento com uma pessoa que acabou de conhecer, provavelmente será chamado de instável algumas vezes na vida. Afinal, ele é homem, né? E já está com trinta anos. Se ele tivesse um carro, mantivesse um relacionamento duradouro (se fosse com a mãe do filho, então, uma bênção), um trabalho com carteira assinada, um apartamento comprado na planta, com piscina e espaço gourmet, bem, ele talvez pudesse ser avaliado como um cara estável, com boa estrutura para o filho.

E uma jovem, também hipotética, que larga um trabalho por conflitos éticos, fica mais de seis meses desempregada (recusando a olhar novamente para aquilo que não acredita), interrompe cursos que não lhe interessam, se envolve profundamente com uma pessoa logo depois de terminar um relacionamento longo (de novo, porque ela é dessas que não têm medo de chegadas e partidas) e está disposta a toda e qualquer mudança que a vida lhe oferecer, também pode ser alvo do fatídico julgamento. Porque ela é mulher, né? Quer sentir segurança no relacionamento e isso vai pesar a hora que ela sossegar o facho. Quem sabe não se aquieta com o namorado, passa em um concurso público e “dessa vez vai”?

Feliz?

Talvez seja difícil de entender para os que julgam (eles não fazem isso por maldade, mas isso é assunto para outro texto) que não é bem assim. Não conseguem ver que o cara hipotético de trinta anos pode ser um artista e que a prisão de crachá e ponto pra bater pode acabar com sua criatividade. Não veem que essa jovem hipotética sofria e adoeceu por estar em um lugar que não acredita. Não percebem que estar em relacionamentos que os colocam em contradição com o que entendem de liberdade os transforma em bombas-relógio. Sim, pessoas desconformes são bombas prestes a explodir, ter ataques de raiva, cair em depressão.

Estou falando dessas pessoas hipotéticas, mas também das que conheço. Amigas e amigos pagando preços altos em nome de algo que julgam necessário. “Já estou com trinta anos e ele é um cara legal”, diz uma amiga que faz malabarismos para aceitar e ser aceita nos abismos de diferença entre ela e o namorado. “Quero namorar, porque quero casar e é isso o que vou fazer”. “Já conheço ela, talvez seja mais fácil”. “É, agora sou pai, não dá mais pra ser aventureiro”. Amigos que olho com certa dor de ver as bombas que estão se transformando. Parecem aqueles painéis de foto, de colocar o rosto, sabe? Têm toda uma ideia cristalizada do ideal e vão encaixando pessoas, lugares e coisas nas expectativas.

Me encaixando em uma galinha. Ficou bom?

Me encaixando em uma galinha. Ficou bom?

E o problema maior dessas tentativas de encaixe é que é desleal. Com você e com tudo que está sendo encaixado. No começo até parece divertido, mas com o tempo a gente percebe que tem alguma coisa errada ali, que aquilo não é exatamente uma galinha ou qualquer outra coisa que você queria que fosse. É o que é. Um artista está para um burocrata, assim como eu estou para uma galinha nessa foto: é desconforme. Insistir no encaixe é muito sofrimento.

A pessoa pode até estar conforme os padrões, mas se há desconformidade com o que se é, o que se quer, dá pra dizer que há estrutura? É possível que o artista burocrata e a jovem de sorrisos demagogos tenham alguma estabilidade? Bom, não consigo dizer que bombas são estáveis. Começo a achar que tem muito andarilho no mundo mais estável que boa parte dos executivos “de sucesso”, ou artista de rua que oferece uma estrutura muito mais sólida do que se fosse celebridade.

Dá até pra tirar fotos bonitas, engraçadas, mostrar para os amigos. Mas as contradições e incoerências estão ali, paisagem nenhuma esconde. Pesam, se transformam em sintomas, em desespero. A gente desespera e vai se afastando cada vez mais. Porque dói. Romper dói. Quebrar paradigmas dói, dá medo.

Tenho me inclinado a pensar que essas ideias cristalizadas nos deixam cada vez mais sozinhos. Elas são formadas o tempo todo pelo que a sociedade tem de mais estrutural. Quem tem medo de romper para de olhar e vai só reproduzindo. Não é à toa que a família feliz dos comerciais é branca, hétero, cis, classe média e consumista.

O presidente uruguaio, José Mujica, fez um discurso lindíssimo na Assembleia Geral da ONU essa semana. Criticando o capitalismo, ele disse:

(…) “o deus mercado, que organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos a frustração, a pobreza, a autoexclusão”

(…) “é contra os ciclos naturais, contra a liberdade, que supõe ter tempo para viver, (…) é uma civilização contra o tempo livre, que não se paga, que não se compra e que é o que nos permite viver as relações humanas”

Olha-se para o “deus mercado”, para a família do comercial e afastamos as relações e o contato com aquilo que não está em coisas ou encaixes. Nos distanciamos dos encontros, da humanidade. Acreditamos precisar dos encaixes e fugimos do que talvez doesse. A ideia de felicidade capitalista é vendida assim e paga-se muito por ela. No final das contas, é para manter o status quo. É só pela foto.

E me encontro assim, aproveitando e pensando, compromissada com a felicidade, ainda que doam os rompimentos. Chamam de instabilidade. Eu chamo de liberdade.

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Fobiafobia

O sufixo “fobia” começou a ser usado como termo psicopatológico, para se referir a temor ou aversão exagerada e irracional a certos objetos, lugares ou situações (veja na Wikipedia). Os manuais de psiquiatria estão cheios de fobias: acrofobia, aracnofobia, hemofobia, e a lista é longa.

Daí que até homofobia estava nessa lista e o movimento LGBT se apropriou lindamente do termo para mostrar para a sociedade que, sim, existe aversão a homossexuais, mas isso nada tem a ver com transtornos mentais. A motivação de demonstrações de homofobia não está ligada a distúrbios, mas a opressão e discriminação. Os crimes homofóbicos são crimes de ódio.

Por uma necessidade política, pela visibilidade de tod@s e para apontar as especificidades, os termos lesbofobia e transfobia também começaram a ser usados por militantes (mas ainda aparecem com sublinhado vermelho, como se não existissem, mais uma prova da necessidade de usá-los).

Há também a gordofobia (também sublinhada pelo corretor do wordpress). E a xenofobia. Palavras que usam o sufixo patológico, mas se referem a minorias, preconceito e desigualdade.

Eu luto e apoio a luta contra todas essas opressões e não é delas que tenho aversão ao uso do termo. Temo a banalização do uso da palavra por quem está em posição de privilégios. Quase como falar sobre “racismo invertido”, ou “misandria”, tem gente chamando a crítica ao fundamentalismo religioso aqui no Brasil de “cristofobia” (juro, tem até na Wikipedia). Ou discursando sobre “heterofobia” (que Marco Feliciano adora falar), acreditem!

Tem também gente usando isso pra fugir do debate. Não sei se por ingenuidade ou por oportunismo. Você vai lá e critica algum aspecto da teoria do Marx, é chamada de “marxistofóbica”. Aponta contradições da psicanálise tradicional, é “freudofóbica”. Critica como se tem usado o termo “sororidade” no feminismo e é “sorofóbica”. E pronto, se encerra a discussão. Parece piada, mas é verdade.

Eu tenho pavor de quem faz isso. Tenho medo de quem deslegitima os movimentos sociais e de quem desqualifica a argumentação de outros. Porque esse uso indiscriminado oferece riscos à visibilidade e necessidade de discutir profundamente os termos que se referem a opressões. “Ah, mas tudo é fobia”. Não, não é!

Ironicamente, eu poderia dizer que sou “fobiafóbica” (olha que quase chego a ter sintomas quando ouço essas coisas). Mas, não, nem ironicamente direi. O assunto é sério.

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Sobre todos nós

Era outro tempo. Não é hoje, nem aqui. Uma guerra longe, mas os estilhaços estão por toda parte.

Mulheres armadas para defesa de sua família, sua honra e seu corpo. Minha avó, talvez? Aqueles homens não as amam. Nem a mais ninguém, nem a si mesmos. Eles estão doentes.

Uma criança chora com medo do barulho que parece ser uma bomba. Ela chora, tem frio e febre. Eu acalento. Me pergunto como ela pode ter medo, sem nunca ter visto ou ouvido uma bomba. Me atento a seus olhos e compreendo. A bomba está longe, mas os estilhaços, aqui, são barulhentos. Essa criança está no meu colo, mas há outras que estão lá perto. E morrem.

E se o tempo fosse esse? Eu, talvez? Pois vejo estilhaços por toda parte.

Mulheres armadas de dureza que o medo daqueles homens, doentes e que não amam, explode toda vez que acordam.

Uma criança chora com medo dos rojões. Parecem tiros, e ela nunca ouviu um. Ela é acalentada, mas ali, em cima do morro, há crianças perto do tiro de verdade. E morrem.

O velho olha para seu quintal e chora as árvores que já não existem mais. E chora pelo velho Kaiowá que viu a terra de seus antepassados virar pasto. Chora as marcas da filha e a morte do neto. Chora por todas as guerras e cada estilhaço. “Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?”

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Geleia de amores fáceis

Duas caixas de morango cheias na geladeira, bem madurinhos, a pouco de estragarem. Mas sabe como é, eles são tão sedutores… Minha mãe deu a ideia: por que não faz geleia? É fácil e gostoso.

Gostoso e fácil? Gosto assim. Acatei a ideia e fui correndo para a cozinha. Logo eu, que não tenho intimidade alguma com utensílios e alimentos. Sabia, de ouvir falar, que na geleia só ia fruta e açúcar. E, sem nunca ter visto, nem procurado na internet (como absolutamente tudo que cozinho), peguei uma caneca de alumínio, lavei os morangos, cortei sem qualquer ordem ou padrão e liguei o fogo.

Assim que começou a esquentar, olhei para o lado e vi o restinho de vinho tinto da noite anterior que havia sobrado na garrafa. Dizem que vinho é mágico e eu acredito. Joguei o tantinho na caneca e me surpreendi com o aroma maravilhoso que se espalhou pelo apartamento. Mexer bem era a ordem, só não me recordo de onde veio essa informação.

Mexi bem até que o morango já tivesse soltado bastante água e se unificado com o vinho. Hora do açúcar. Coloquei um pouco, mexi, coloquei mais um pouco, mexi de novo e mais um pouco. Achei que fosse suficiente, não queria que ficasse muito doce. A quantidade? Umas três colheres de sopa, talvez. Mexi até a hora que pensei: é uma geleia. Desliguei o fogo, peguei o mixer e, na caneca mesmo, dei uma batida bem rápida. Coloquei no pote e mal consegui esperar esfriar. Estava uma delícia.

Eu fiquei perplexa com o resultado. Tão fácil e tão gostoso. Como algo simples, guiado somente pela minha intuição e desejo poderia dar tão certo? Entendi que essa é a graça da geleia, o resultado não poderia ser diferente. Eu, movida por vontade e carinho. O morango estava disponível e se entregou. Ele gosta de ser morango, mas sentiu que já era hora de deixar rolar o que a vida tinha a oferecer. Nos encontramos, foi bom para nós (e para quem mais quisesse desfrutar).

Não que o que a vida traz de desafio não seja bom também. Mas o prazer não demanda coisa alguma. Não é preciso barreira, conflito, medo ou receitas. Quando há disposição, o resultado só pode ser fácil e gostoso.

E meus amores, digo, geleias, são assim: simples e sem rótulos.

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Maria e João

Maria, 35 anos, casada com João, de 40. Maria, oprimida pelo patriarcado, com todas as referências de vida de opressão, se submeteu ao machismo de João. Afinal, era um bom homem, as pessoas gostavam dele, tinha um bom emprego. Tiveram filhos, como se espera na sociedade. João começou a beber e, alcoolizado, a agredia toda vez que chegava em casa. Antes disso, já dizia absurdos, que ela minimizava com desculpas esfarrapas: “ele deve estar estressado”, “a comida realmente não estava boa”. Afinal, é dolorido reconhecer que o príncipe na verdade é vilão. Depois que as agressões físicas começaram, a Assistente Social da empresa em que Maria trabalhava, fez uma visita na casa dela, para investigar a origem dos hematomas. Infelizmente, a Assistente Social, distante da realidade, inconsciente das diversas configurações das violências, viu um pai carinhoso com os filhos e achou que estava tudo bem. “Ele é um bom pai, ao menos”, concordou Maria. Mas João não deixou barato e coagiu que Maria abandonasse o emprego. Não precisavam, ele ganhava bem. Ela, fraca demais para se opor, cedeu. Dois anos se passaram e ela decidiu dar um basta. Não suportava mais aquela situação. Tirou do fundo da alma o restinho de força que lhe sobrara, juntou algumas roupas, pegou os filhos pelas mãos e saiu de casa. Não sabia o que fazer. Sabia que havia algo de errado ali, mas como interromper aquilo? Lembrou que um dia viu na TV sobre uma tal de delegacia da mulher, achou que devesse ir ali, afinal, era mulher. Entrou na primeira que viu em sua peregrinação e, um grupo de homens com olhares inquisidores disseram que não era ali que deveria estar, passaram o endereço da tal delegacia da mulher. O local era longe, teria que pagar passagem de ônibus, mas não tinha dinheiro para isso. Sentou-se na calçada com os filhos e começou a chorar. A noite foi caindo e as crianças, desesperadas de medo, frio e fome, choraram também, pedindo para voltar pra casa. Ela, como boa mãe que a sociedade espera, voltou. João acolheu as crianças, mas Maria apanhou a noite inteira. No dia seguinte, pediu ajuda a uma vizinha, que, assustada com os ferimentos, a acompanhou até o Pronto Socorro do bairro. Lá, as enfermeiras já compreenderam logo no primeiro atendimento e acionaram o Serviço Social do local. Essa Assistente Social, muito mais sensível que a outra, já entrou em contato com instituições de Defesa da Mulher, que a encaminharam para um abrigo sigiloso para ela e as crianças, recebeu orientações dos profissionais, atendimento psicológico, foi inscrita em um programa de transferência de renda para que não dependesse mais financeiramente de João e um programa de capacitação profissional. Maria começou a ver outros caminhos possíveis, sem ter que voltar pela estrada marcada em seu corpo.