Aqueles olhares vadios

São Paulo, vinte e cinco de maio de 2013, Marcha das Vadias.

Mais uma edição dessa manifestação tão importante para o feminismo. Eu poderia falar sobre quais são nossas reivindicações, a origem dela lá no Canadá e sua relevância na luta pela liberdade das mulheres e direitos humanos. Mas vou deixar essa tarefa para outras páginas feministas queridas que falaram com muita propriedade sobre o tema.

Poderia discorrer sobre os cartazes, os manifestos e os corpos pintados. Sobre a beleza de ver aquelas mulheres, corajosas e empoderadas, falando sobre seu corpo, sua sexualidade, seus direitos e sua liberdade. Mas veja as belas fotos espalhadas nas redes sociais e alguns portais de notícias e tire suas conclusões.

Eu poderia compartilhar minha história, minhas motivações pessoais e as razões pelas quais me identifico tanto com a Marcha das Vadias. Mas não, não dessa vez. Vou mostrar meu papel na marcha desse ano e como é meu feminismo.

Ilustrado por megafones silkados, o tema principal da manifestação esse ano foi “Quebre o silêncio”. Um incentivo às mulheres a não se isolarem ou culparem e se mobilizarem contra a violência e a opressão. Um chamado às ruas. Um convite ao feminismo.

Aí me lembrei que esse tal de silêncio pode ter as motivações mais profundas. Do medo da repreensão ao medo do julgamento. E que muitas das “escolhas” por ele vêm carregadas de sentimento de impotência e culpa. Às vezes, o incentivo à luta pode ecoar com pesar se a mulher não se sente tão corajosa e empoderada assim.

E foi por essa mulher que resolvi marchar. Aquela por quem a marcha passou fazendo ruído nos ouvidos e no coração. A trabalhadora da rua Augusta, profissional do sexo ou lojista, a estudante sentada no bar, a mãe dentro do ônibus. A mulher que nunca tinha ouvido falar da manifestação, a que achava esquisito os topless, a que não sabe muito bem o que é feminismo. A ela que, mesmo sem se dar conta, tinha seu silêncio contemplado por aquele barulho.

Só considero coerente minha militância feminista quando luto por TODAS as mulheres. Não acho que faça sentido um feminismo que não seja assim. Mesmo aquela mulher que torce o nariz e rejeita meu discurso precisa ser acolhida, ela também é oprimida.

Refletindo sobre tudo isso, saí à rua munida de um cartaz e um olhar atento. O cartaz dizia: “A culpa não é sua! Estamos com você!”. O olhar procurava pessoas por quem a mensagem pudesse ser vista e sentida. E, com muita gratidão, recebi os olhares de volta.

Foto de Cecília Santos

Foto de Cecília Santos

Uma mulher, vestida com o uniforme de uma loja de roupas famosa olhou, sorriu e concordou com a cabeça. Outra, de dentro do carro, também balançou a cabeça em concordância, mas sem sorrir. Uma adolescente apontou e sorriu. Uma senhora fez sinal positivo com a mão. Todas elas assistiam o grupo descer pela Rua Augusta. Entre @s manifestantes, um rapaz afastou seu cartaz que dizia “machismo e homofobia andam de mãos dadas” e pediu para tirar uma foto. Já no final, na Praça Roosevelt, uma moça me chamou: “Ei! Blogueira Feminista! Obrigada”.

A minha missão, a de buscar aqueles olhares vadios e dizer que, silenciados ou não, a culpa nunca foi deles, foi cumprida.

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