As lagartas que suportei

Outubro do ano passado eu e Danilo decidimos mudar de cidade e de estilo de vida. Saímos de São Paulo em busca de tranquilidade, menos trabalho, mais plantas e simplicidade. Chegamos em Jundiaí. Um mês depois, para comemorar o aniversário dele e mostrar a casa nova para os amigos, demos uma festa cheia de pessoas queridas, entre elas Giovane e Anai, um casal de amigos muito especial. Gi e Anai trouxeram presentes: limões, um vaso com babosa, outro com uma planta que diziam ser uma bela flor roxa e dicas de como cuidar daquela terra ainda tão seca e batida para começarmos a plantação.

Poucas semanas e algumas manhãs com enxada na mão depois, o boldo, o alecrim, o manjericão e o cravo que vieram da janela de um apartamento da cidade grande ganharam um lindo jardim ao lado da babosa, da flor roxa e de outras coisas que foram chegando aos poucos. Em janeiro veio a horta, alguns medicinais e até sementes de frutas brotaram. E a flor, aquela roxa, finalmente floresceu, exatamente no dia que Anai e Gi chegavam de viagem.

E foi assim por todos esses dias de verão. A cada manhã mais flores roxas no jardim. No final da tarde a maior parte delas caía no chão, voltava pra terra, algumas se fechavam, mas toda manhã tinha flor. Até que, na véspera do carnaval, percebemos a presença de umas cinco ou seis lagartas na planta. Como estávamos felizes com o ecossistema que se formava ali (formigas, abelhas, minhocas, cigarras) optamos por não tirá-las e em apenas um dia elas comeram quase todas as folhas. Desde então nenhuma flor apareceu. O desespero de ver a planta sem folhas ou flores nos fez optar pela retirada e planejamos como seria: o destino era a pracinha do bairro onde tinha mais opção para a folia dos bichinhos. O plano foi abortado por causa de uma quarta-feira de cinzas chuvosa.

Hoje o Sol voltou a iluminar o jardim e ali uma grande transformação acontecia: uma das lagartas estava pendurada no galho da planta e se contorcia em movimentos que nos remetia a algo doloroso, enquanto pequenas partes do seu corpo se soltavam e caiam no chão. Todas as outras, exceto aquela perdida no corredor, pareciam se preparar para o mesmo processo.

Casulo

Casulo

Que os poetas adoram metáforas com as borboletas nós já sabemos. Que o segredo é cuidar do jardim para que elas venham até nós ou que é preciso suportar duas ou três lagartas para conhecê-las, tudo isso já era sabido e, de tão clichê, ficou também esquecido. Às vezes precisamos ver essas transformações concretas e literais para encher novamente os poemas de sentindo. E nós ficamos ali, contemplando. Por lembrar das dores das mudanças, das ideias que morrem e do desconhecido que nasce, nos emocionamos.

Anai e Gi nos presentearam com uma lição. O que parecia um evento desastroso era só o caminho da vida, era o inevitável. Pode até parecer sentimentalismo barato, mas os casulos que se formam no nosso jardim encheram meu coração de esperança e gratidão. Que sejam bem-vindas as borboletas mensageiras!

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Um comentário sobre “As lagartas que suportei

  1. Bela,
    Criar uma metáfora é algo bastante nobre num mundo que tem valorizado mais as ironias. Nas salvar uma metáfora é para além de qualquer valor: é ganhar a vida eterna na gratidão de quem visita essa ideia reabastecida de sentido.

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