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Fobiafobia

O sufixo “fobia” começou a ser usado como termo psicopatológico, para se referir a temor ou aversão exagerada e irracional a certos objetos, lugares ou situações (veja na Wikipedia). Os manuais de psiquiatria estão cheios de fobias: acrofobia, aracnofobia, hemofobia, e a lista é longa.

Daí que até homofobia estava nessa lista e o movimento LGBT se apropriou lindamente do termo para mostrar para a sociedade que, sim, existe aversão a homossexuais, mas isso nada tem a ver com transtornos mentais. A motivação de demonstrações de homofobia não está ligada a distúrbios, mas a opressão e discriminação. Os crimes homofóbicos são crimes de ódio.

Por uma necessidade política, pela visibilidade de tod@s e para apontar as especificidades, os termos lesbofobia e transfobia também começaram a ser usados por militantes (mas ainda aparecem com sublinhado vermelho, como se não existissem, mais uma prova da necessidade de usá-los).

Há também a gordofobia (também sublinhada pelo corretor do wordpress). E a xenofobia. Palavras que usam o sufixo patológico, mas se referem a minorias, preconceito e desigualdade.

Eu luto e apoio a luta contra todas essas opressões e não é delas que tenho aversão ao uso do termo. Temo a banalização do uso da palavra por quem está em posição de privilégios. Quase como falar sobre “racismo invertido”, ou “misandria”, tem gente chamando a crítica ao fundamentalismo religioso aqui no Brasil de “cristofobia” (juro, tem até na Wikipedia). Ou discursando sobre “heterofobia” (que Marco Feliciano adora falar), acreditem!

Tem também gente usando isso pra fugir do debate. Não sei se por ingenuidade ou por oportunismo. Você vai lá e critica algum aspecto da teoria do Marx, é chamada de “marxistofóbica”. Aponta contradições da psicanálise tradicional, é “freudofóbica”. Critica como se tem usado o termo “sororidade” no feminismo e é “sorofóbica”. E pronto, se encerra a discussão. Parece piada, mas é verdade.

Eu tenho pavor de quem faz isso. Tenho medo de quem deslegitima os movimentos sociais e de quem desqualifica a argumentação de outros. Porque esse uso indiscriminado oferece riscos à visibilidade e necessidade de discutir profundamente os termos que se referem a opressões. “Ah, mas tudo é fobia”. Não, não é!

Ironicamente, eu poderia dizer que sou “fobiafóbica” (olha que quase chego a ter sintomas quando ouço essas coisas). Mas, não, nem ironicamente direi. O assunto é sério.

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Eu estava bem louca um dia

Largo Coração de Jesus/SP - foto de Danilo Sanches

Fotos: Danilo Sanches

O largo coração de Jesus, digo, o Largo Coração de Jesus, no centro de São Paulo, abrigava, em 2011, parte da Cracolândia. A imagem do filho-do-homem, de braços abertos e seu espinhado coração testemunhava todo o sofrimento, enquanto missionários disputavam outra partida de vôlei na quadra da praça, às vistas de Daniela*. Era dezembro, fim de expediente. Menos para ela, para quem o dia não dava folga. Sentei-me ao seu lado para ver junto à cena.

— Gosta de vôlei, tia?

— Sim — respondi. E você?

— Ô! Jogava na escola, até. E eu era boa.

— Pô, devia ser mesmo. Você é alta, tem corpo de jogadora.

O comentário sobre seu corpo pareceu ter interrompido seu raciocínio. Ela abaixou a cabeça como quem o nega intimamente. Por um silencioso segundo o jogo de vôlei passou a ser mais uma atividade no Largo com a qual ela não se relacionava. Mas meu pensamento foi interrompido pela retomada do diálogo.

— O professor falava que eu jogava bem. Que eu ganharia dinheiro com isso, mas nem acreditei — e riu.

— E a escola? Você ainda vai à escola?

— Não — disse rapidamente. Faz dois anos que larguei. Trampava de dia, num mercado perto de casa e ia pra escola à noite. Não estudava, só jogava vôlei e beijava na boca.

Ela tinha realmente um sorriso lindo, eu reparei quando riu no fim da frase.

— E o que aconteceu?

— Ah, tia, você sabe, né? Sempre foi difícil pra nós. Minha avó morreu, eu tinha acabado de ficar de maior. Minha mãe morreu dois anos antes. Bebia e ficava mais louca que eu, um dia foi atropelada. Minha avó, acho que morreu de desgosto. Eu já fumava pedra de vez em quando. A gente saía da escola e ia fumar ali perto do mercado da Lapa. Quando a mãe morreu, afundei de vez. Larguei escola, perdi emprego. Minha avó morreu por causa disso, certeza. Aí num tinha mais nada, acabei ficando na rua mesmo. Tenho pai, sabe? Mas ele é gambé, nem sonha que sou craqueira.

Pausa longa pela biografia resumida pela dor. Pausa longa por não haver o que fazer, ali, exceto ser companhia.

— Você é bonita.

— Obrigada, Daniela. Você também é bonita.

— Ah, até parece, olha pra mim!

Olhando para o que ela estava mostrando, vi uma mulher, pouco mais jovem que eu, bonita, envelhecida muito precocemente pelo sofrimento que carregava e marcada pelo uso abusivo do crack. Dedos e lábios queimados; perda de alguns dentes.

— Continuo achando você bonita.

— Você está mentindo pra mim, olha direito! Sempre falavam que minhas pernas eram bonitas, olha agora, tenho um monte de marca!

— O que são essas marcas? — eram muitas cicatrizes que tinha nas pernas.

— Eu estava bem louca um dia. Tinha fumado e bebido muito. Chegou um cara e tentou me agarrar. Lutei, chutei, mas não conseguia. Ele puxou uma faca e me cortou inteira, até minha boceta.

— Nossa, Dani, mas o que aconteceu? Você denunciou essa pessoa?

— Não me lembro de mais nada. Acordei no hospital, falaram que não ia dar em nada, fiquei quieta. Faz tempo, eu tinha uns 16.

Eu não esperava mesmo que ela fosse continuar. Um barulho como pretexto, a distração dela e era a deixa para que levantasse e fosse embora. Eu fiquei ali apesar de ter ido embora também. Eu fiquei ali chorando, mesmo que já na minha casa.

Marcha da Luta Antimanicomial 2013 - foto de Danilo Sanches

Sábado, 18 de maio, foi dia da Luta Antimanicomial. Acompanhei as centenas de pessoas que marcharam do vão do MASP à Praça Roosevelt empunhando cartazes que falavam sobre suas (e nossas) loucuras. “Qual a sua loucura?” – provocava um deles. Marchamos junt@s: curiosos, profissionais, militantes, louc@s, sem a necessidade de diferenciar quem era quem.

Às vezes ainda volto para o largo coração de Jesus para tentar entender. Pensei em Daniela, nas dores e punições por sua loucura. Agora, convido vocês a acompanharem meu questionamento: como cuidar dos espinhos largos desses corações?

Marcha da Luta Antimanicomial 2013 - foto de Danilo Sanches

(*)Nota: Esse diálogo aconteceu no período em que trabalhei com pessoas em situação de rua na Cracolândia. O nome foi alterado por questões éticas.

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Manifesto pelos sonhos

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Pelo tratamento digno às pessoas usuárias de drogas. Pelo fim das comunidades terapêuticas e da internação compulsória. Pela não criminalização da pobreza. Pela Redução de Danos. Pelos Direitos Humanos. Que haja cuidado, e não julgamento.

Pela despatologização das identidades trans*. Por uma visão de gênero social, e não biomédica. Pela conscientização de que identidade não é transtorno ou doença. Que se dê todos os ouvidos e visibilidade possível às pessoas trans*.

Pela manifestação livre do amor e da sexualidade. Que nenhuma orientação sexual seja alvo de fundamentalistas religiosos e/ou visões patologizantes. Que nenhum profissional venda a “cura”, quando na verdade as fontes de sofrimento são outras.

Pela não medicalização da educação e da infância. Por uma escola mais inclusiva e métodos educacionais mais libertários. Pela responsabilização de toda a sociedade. Pelo fim da meritocracia. Que todas as individualidades sejam abarcadas.

Pela luta contra o preconceito. Que ninguém seja discriminado por ser considerado desajustado. Que toda loucura seja respeitada.

Pelo acesso da população ao atendimento digno em saúde mental. Pelos CAPS, pelas UBS, pelas residências terapêuticas, por equipes interdisciplinares que respeitem os fundamentos do SUS e a Reforma Psiquiátrica. Que haja democracia.

Pelo fim da criação desenfreada de novos transtornos nos manuais médicos. Que nenhuma subjetividade se submeta a normas. Que a vida não necessite ser diagnosticada.

Por Franco Basaglia e Nise da Silveira, que acreditaram em TODOS os sonhos.