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Sobre homens e cozinhas*

Eu tinha desistido de escrever sobre isso. Sim, ia dizer que amar é bom. Daí me senti a trouxa da notícia velha numa madrugada de sábado, quando fui a uma balada com as amigas, e troquei SMS cheios de carinho com meu companheiro, que ficou em casa e arrumou lindamente a cozinha.

E na balada, uma dessas que se identifica como ~balada gay~, vi situações muito desagradáveis aos meus olhos feministas. Sim, até lá alguns homens assediavam mulheres. Vi um cara irado com uma garota que não quis beijá-lo pela segunda vez. Outro deixou uma amiga constrangida e indignada com a abordagem violenta. Outro interrompeu as carícias de um casal de lésbicas, se oferecendo para ser o macho que, supunha ele, faltava ali.

Aqueles homens, tão fora de si, tão distantes daquelas mulheres, provocaram em mim sensações de angústia e pesar. Fiquei observando e a única coisa que passava pela minha cabeça era: não é querer, não é gostar, não é atração, não é tesão… É outra coisa. Porque se estivessem minimamente interessados num relacionamento, ainda que breve em relação ao tempo, seriam ao menos atenciosos ao que elas querem, ao que elas são. Pode até rolar um toque dos corpos, mas não dá pra dizer que há encontro. E eles, tão ocupados com os protocolos machistas, estão sozinhos.

Por isso acho inviável, hoje, me relacionar com pessoas que não apoiam minha luta, que não endossem minha liberdade. Porque não quero nada que seja menos que carinho e atenção. Não tem jeito a dar. Não tem arredondamento. Dá vontade de fazer um apelo aqui para que ninguém aceite o que não for isso, pois merecemos só o que é bom, precisamos ser radicais (estou escrevendo outro texto sobre isso).

Eu, angustiada, voltei para casa. Ele, pessoa que tenho namorado, cuidou de mim. Fez chá para aliviar a cólica e cafuné para aliviar o coração. Naquela mesma cozinha onde, dias atrás, estávamos sentados no chão esperando as empanadas ficarem prontas e conversando sobre as pessoas não serem rejeitáveis.

chá

Gente, o lugar de qualquer pessoa é onde ela quiser. O lugar do homem pode ser na cozinha, na afetuosidade, no leve, no colorido, no doce, na entrega. E o amor, com o perdão do clichê, é desejar incondicionalmente o bem estar do outro e encontra nos corações dispostos o seu abrigo.

É bom.

*Texto em resposta a “Sobre mulheres e cozinhas”.

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O riso dos mesmos

Humor pra rir. Rir pra ser feliz, porque a gente tem mais é que ser feliz!

Pera. Calma. Vamo devagar, porque tem boi nessa linha. E é um boi perverso, digo, é uma perversidade que se esconde na sombra do humor. Se esconde atrás da neblina de hiperventilação que o riso causa. E o humor é perverso à medida que destaca diferenças, defeitos, erros ou outros conceitos baseados em padrões hegemônicos.

Padrões hegemônicos = regras, conceitos, definições do que é certo baseadas nas ideias dos grupos dominantes política, econômica e intelectualmente.

E aí, a gente pode pensar: não existe humor? Estamos fadados à patrulha do politicamente correto? Que mundo sem graça. Me dá meu Rivotril.

Vejam, eu fiz uma piada. E ela pode ter sido bastante perversa. Porque eu sei bem o quanto sofre alguém que depende de um remédio de indicação psiquiátrica. E por ela, peço desculpas. Usei de exemplo para começar a falar desse assunto por um viés diferente.

Falar do humor pelo viés do amor. Falar do riso dos mesmos, que ainda e ainda riem das mesmas coisas e oprimem os mesmos grupos e alardeiam as mesmas velhas ideias. E aí, fizemos assim, em forma de aforismos mesmo, beijo.

Vem comigo.

O único humor que não é perverso é aquele que revela as contradições.

Não é engraçado rir de alguém que está sofrendo. Mas pode ser engraçado rir de alguém que está fazendo algo absurdo e que contradiz a lógica.

Quem ri de alguém que está sofrendo, não quer a felicidade dela/dele. E aí, por não querer a felicidade das pessoas, apelam e reforçam as situações que geram sofrimento nelas.

Quem ri do outro, alardeia que possa ser verdade que as diferenças sejam desqualificantes. Eles reproduzem e fazem a manutenção das opressões. E as opressões são fonte de sofrimento.

Então, as piadas “fóbicas” são, na verdade, a comemoração do sofrimento alheio. Porque não é possível que alguém que destaque jocosamente uma situação vivida pelo outro, não identifique que há sofrimento ali.

Seria como tentar rir de um pizzaiolo porque ele joga a massa da pizza para cima enquanto a prepara. Não há percepção de humor em desqualificá-lo por essa ação.

E não há felicidade em rir do sofrimento alheio.

Quem ri de quem sofre, odeia a pessoa destacada. E então se odiaria naquela situação também.

Inclusive, contemplando a possibilidade de se odiar, seu amor próprio não é incondicional, logo não é amor.

Porque amor só é se for incondicional. Não é possível que as pessoas não vejam isso. Se você impõe uma condição para amar, você não ama, você controla ou quer controlar. O amor só é se for livre.

E você não é obrigado a amar as pessoas. Mas isso só denota o quanto você se ama ou não. Porque se você não se amaria na condição delas, logo, admite a possibilidade de não se amar. Se você admite a possibilidade de não se amar, você não se ama por inteiro. Porque amor e desamor não convivem, se anulam.

Tente rir do que realmente tem graça. Isso é uma proposta, um desafio. Tente amar e ainda assim ver humor. Talvez você chegue mais perto da felicidade.

*O texto foi escrito em uma unidade de pensamento incrível por Isabela e Danilo. O título faz referência a este documentário aqui, ó: https://www.youtube.com/watch?v=PRQ1LuBWoLg

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Aqueles olhares vadios

São Paulo, vinte e cinco de maio de 2013, Marcha das Vadias.

Mais uma edição dessa manifestação tão importante para o feminismo. Eu poderia falar sobre quais são nossas reivindicações, a origem dela lá no Canadá e sua relevância na luta pela liberdade das mulheres e direitos humanos. Mas vou deixar essa tarefa para outras páginas feministas queridas que falaram com muita propriedade sobre o tema.

Poderia discorrer sobre os cartazes, os manifestos e os corpos pintados. Sobre a beleza de ver aquelas mulheres, corajosas e empoderadas, falando sobre seu corpo, sua sexualidade, seus direitos e sua liberdade. Mas veja as belas fotos espalhadas nas redes sociais e alguns portais de notícias e tire suas conclusões.

Eu poderia compartilhar minha história, minhas motivações pessoais e as razões pelas quais me identifico tanto com a Marcha das Vadias. Mas não, não dessa vez. Vou mostrar meu papel na marcha desse ano e como é meu feminismo.

Ilustrado por megafones silkados, o tema principal da manifestação esse ano foi “Quebre o silêncio”. Um incentivo às mulheres a não se isolarem ou culparem e se mobilizarem contra a violência e a opressão. Um chamado às ruas. Um convite ao feminismo.

Aí me lembrei que esse tal de silêncio pode ter as motivações mais profundas. Do medo da repreensão ao medo do julgamento. E que muitas das “escolhas” por ele vêm carregadas de sentimento de impotência e culpa. Às vezes, o incentivo à luta pode ecoar com pesar se a mulher não se sente tão corajosa e empoderada assim.

E foi por essa mulher que resolvi marchar. Aquela por quem a marcha passou fazendo ruído nos ouvidos e no coração. A trabalhadora da rua Augusta, profissional do sexo ou lojista, a estudante sentada no bar, a mãe dentro do ônibus. A mulher que nunca tinha ouvido falar da manifestação, a que achava esquisito os topless, a que não sabe muito bem o que é feminismo. A ela que, mesmo sem se dar conta, tinha seu silêncio contemplado por aquele barulho.

Só considero coerente minha militância feminista quando luto por TODAS as mulheres. Não acho que faça sentido um feminismo que não seja assim. Mesmo aquela mulher que torce o nariz e rejeita meu discurso precisa ser acolhida, ela também é oprimida.

Refletindo sobre tudo isso, saí à rua munida de um cartaz e um olhar atento. O cartaz dizia: “A culpa não é sua! Estamos com você!”. O olhar procurava pessoas por quem a mensagem pudesse ser vista e sentida. E, com muita gratidão, recebi os olhares de volta.

Foto de Cecília Santos

Foto de Cecília Santos

Uma mulher, vestida com o uniforme de uma loja de roupas famosa olhou, sorriu e concordou com a cabeça. Outra, de dentro do carro, também balançou a cabeça em concordância, mas sem sorrir. Uma adolescente apontou e sorriu. Uma senhora fez sinal positivo com a mão. Todas elas assistiam o grupo descer pela Rua Augusta. Entre @s manifestantes, um rapaz afastou seu cartaz que dizia “machismo e homofobia andam de mãos dadas” e pediu para tirar uma foto. Já no final, na Praça Roosevelt, uma moça me chamou: “Ei! Blogueira Feminista! Obrigada”.

A minha missão, a de buscar aqueles olhares vadios e dizer que, silenciados ou não, a culpa nunca foi deles, foi cumprida.

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Eu estava bem louca um dia

Largo Coração de Jesus/SP - foto de Danilo Sanches

Fotos: Danilo Sanches

O largo coração de Jesus, digo, o Largo Coração de Jesus, no centro de São Paulo, abrigava, em 2011, parte da Cracolândia. A imagem do filho-do-homem, de braços abertos e seu espinhado coração testemunhava todo o sofrimento, enquanto missionários disputavam outra partida de vôlei na quadra da praça, às vistas de Daniela*. Era dezembro, fim de expediente. Menos para ela, para quem o dia não dava folga. Sentei-me ao seu lado para ver junto à cena.

— Gosta de vôlei, tia?

— Sim — respondi. E você?

— Ô! Jogava na escola, até. E eu era boa.

— Pô, devia ser mesmo. Você é alta, tem corpo de jogadora.

O comentário sobre seu corpo pareceu ter interrompido seu raciocínio. Ela abaixou a cabeça como quem o nega intimamente. Por um silencioso segundo o jogo de vôlei passou a ser mais uma atividade no Largo com a qual ela não se relacionava. Mas meu pensamento foi interrompido pela retomada do diálogo.

— O professor falava que eu jogava bem. Que eu ganharia dinheiro com isso, mas nem acreditei — e riu.

— E a escola? Você ainda vai à escola?

— Não — disse rapidamente. Faz dois anos que larguei. Trampava de dia, num mercado perto de casa e ia pra escola à noite. Não estudava, só jogava vôlei e beijava na boca.

Ela tinha realmente um sorriso lindo, eu reparei quando riu no fim da frase.

— E o que aconteceu?

— Ah, tia, você sabe, né? Sempre foi difícil pra nós. Minha avó morreu, eu tinha acabado de ficar de maior. Minha mãe morreu dois anos antes. Bebia e ficava mais louca que eu, um dia foi atropelada. Minha avó, acho que morreu de desgosto. Eu já fumava pedra de vez em quando. A gente saía da escola e ia fumar ali perto do mercado da Lapa. Quando a mãe morreu, afundei de vez. Larguei escola, perdi emprego. Minha avó morreu por causa disso, certeza. Aí num tinha mais nada, acabei ficando na rua mesmo. Tenho pai, sabe? Mas ele é gambé, nem sonha que sou craqueira.

Pausa longa pela biografia resumida pela dor. Pausa longa por não haver o que fazer, ali, exceto ser companhia.

— Você é bonita.

— Obrigada, Daniela. Você também é bonita.

— Ah, até parece, olha pra mim!

Olhando para o que ela estava mostrando, vi uma mulher, pouco mais jovem que eu, bonita, envelhecida muito precocemente pelo sofrimento que carregava e marcada pelo uso abusivo do crack. Dedos e lábios queimados; perda de alguns dentes.

— Continuo achando você bonita.

— Você está mentindo pra mim, olha direito! Sempre falavam que minhas pernas eram bonitas, olha agora, tenho um monte de marca!

— O que são essas marcas? — eram muitas cicatrizes que tinha nas pernas.

— Eu estava bem louca um dia. Tinha fumado e bebido muito. Chegou um cara e tentou me agarrar. Lutei, chutei, mas não conseguia. Ele puxou uma faca e me cortou inteira, até minha boceta.

— Nossa, Dani, mas o que aconteceu? Você denunciou essa pessoa?

— Não me lembro de mais nada. Acordei no hospital, falaram que não ia dar em nada, fiquei quieta. Faz tempo, eu tinha uns 16.

Eu não esperava mesmo que ela fosse continuar. Um barulho como pretexto, a distração dela e era a deixa para que levantasse e fosse embora. Eu fiquei ali apesar de ter ido embora também. Eu fiquei ali chorando, mesmo que já na minha casa.

Marcha da Luta Antimanicomial 2013 - foto de Danilo Sanches

Sábado, 18 de maio, foi dia da Luta Antimanicomial. Acompanhei as centenas de pessoas que marcharam do vão do MASP à Praça Roosevelt empunhando cartazes que falavam sobre suas (e nossas) loucuras. “Qual a sua loucura?” – provocava um deles. Marchamos junt@s: curiosos, profissionais, militantes, louc@s, sem a necessidade de diferenciar quem era quem.

Às vezes ainda volto para o largo coração de Jesus para tentar entender. Pensei em Daniela, nas dores e punições por sua loucura. Agora, convido vocês a acompanharem meu questionamento: como cuidar dos espinhos largos desses corações?

Marcha da Luta Antimanicomial 2013 - foto de Danilo Sanches

(*)Nota: Esse diálogo aconteceu no período em que trabalhei com pessoas em situação de rua na Cracolândia. O nome foi alterado por questões éticas.

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Manifesto pelos sonhos

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Pelo tratamento digno às pessoas usuárias de drogas. Pelo fim das comunidades terapêuticas e da internação compulsória. Pela não criminalização da pobreza. Pela Redução de Danos. Pelos Direitos Humanos. Que haja cuidado, e não julgamento.

Pela despatologização das identidades trans*. Por uma visão de gênero social, e não biomédica. Pela conscientização de que identidade não é transtorno ou doença. Que se dê todos os ouvidos e visibilidade possível às pessoas trans*.

Pela manifestação livre do amor e da sexualidade. Que nenhuma orientação sexual seja alvo de fundamentalistas religiosos e/ou visões patologizantes. Que nenhum profissional venda a “cura”, quando na verdade as fontes de sofrimento são outras.

Pela não medicalização da educação e da infância. Por uma escola mais inclusiva e métodos educacionais mais libertários. Pela responsabilização de toda a sociedade. Pelo fim da meritocracia. Que todas as individualidades sejam abarcadas.

Pela luta contra o preconceito. Que ninguém seja discriminado por ser considerado desajustado. Que toda loucura seja respeitada.

Pelo acesso da população ao atendimento digno em saúde mental. Pelos CAPS, pelas UBS, pelas residências terapêuticas, por equipes interdisciplinares que respeitem os fundamentos do SUS e a Reforma Psiquiátrica. Que haja democracia.

Pelo fim da criação desenfreada de novos transtornos nos manuais médicos. Que nenhuma subjetividade se submeta a normas. Que a vida não necessite ser diagnosticada.

Por Franco Basaglia e Nise da Silveira, que acreditaram em TODOS os sonhos.

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Das declarações mais lindas

Te amo.

Te mordo, mas pra você.

Te quero, quando você quiser.

Te desejo, mas só o seu prazer.

Te cuido, para te manter forte, não porque é frágil.

Te admiro, mas não ancorado em coisas perecíveis.

Te poemo, te fotografo, musicalizo e imortalizo.

Te encontro, me reencontro e aprendo.

Porque é sério, é leve, é sereno, é profundo, é simples.

Porque somos companheiros de cotidiano e de luta.

Porque carinho não tem fim, e pra você só digo sim.

Porque a gente oferece asas, e não algemas.

Porque é assim: tudo, e toda.

Porque nós merecemos.

Porque te amo.