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Sobre todos nós

Era outro tempo. Não é hoje, nem aqui. Uma guerra longe, mas os estilhaços estão por toda parte.

Mulheres armadas para defesa de sua família, sua honra e seu corpo. Minha avó, talvez? Aqueles homens não as amam. Nem a mais ninguém, nem a si mesmos. Eles estão doentes.

Uma criança chora com medo do barulho que parece ser uma bomba. Ela chora, tem frio e febre. Eu acalento. Me pergunto como ela pode ter medo, sem nunca ter visto ou ouvido uma bomba. Me atento a seus olhos e compreendo. A bomba está longe, mas os estilhaços, aqui, são barulhentos. Essa criança está no meu colo, mas há outras que estão lá perto. E morrem.

E se o tempo fosse esse? Eu, talvez? Pois vejo estilhaços por toda parte.

Mulheres armadas de dureza que o medo daqueles homens, doentes e que não amam, explode toda vez que acordam.

Uma criança chora com medo dos rojões. Parecem tiros, e ela nunca ouviu um. Ela é acalentada, mas ali, em cima do morro, há crianças perto do tiro de verdade. E morrem.

O velho olha para seu quintal e chora as árvores que já não existem mais. E chora pelo velho Kaiowá que viu a terra de seus antepassados virar pasto. Chora as marcas da filha e a morte do neto. Chora por todas as guerras e cada estilhaço. “Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?”

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