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Chamam de instabilidade

“Aproveita que você é jovem”, “quando eu tinha sua idade também pensava assim”, quem nunca?? E sempre que eu ouvia a segunda frase, questionava em silêncio: “por que não pensa mais?”. A vida vai passando pelos vinte e tantos anos e você olha para o que as pessoas te cobram e valorizam. Fica mais fácil de entender.

A ideia é: envelhecemos, responsabilidades mudam e estamos fadados a precisar de estrutura e estabilidade. É o que dizem por aí… Mas que cargas d’água é isso?

Um cara, hipotético, de uns trinta anos, com filho, sem carro, que vive mudando de casa e emprego, já foi casado mais de uma vez e se joga em um relacionamento com uma pessoa que acabou de conhecer, provavelmente será chamado de instável algumas vezes na vida. Afinal, ele é homem, né? E já está com trinta anos. Se ele tivesse um carro, mantivesse um relacionamento duradouro (se fosse com a mãe do filho, então, uma bênção), um trabalho com carteira assinada, um apartamento comprado na planta, com piscina e espaço gourmet, bem, ele talvez pudesse ser avaliado como um cara estável, com boa estrutura para o filho.

E uma jovem, também hipotética, que larga um trabalho por conflitos éticos, fica mais de seis meses desempregada (recusando a olhar novamente para aquilo que não acredita), interrompe cursos que não lhe interessam, se envolve profundamente com uma pessoa logo depois de terminar um relacionamento longo (de novo, porque ela é dessas que não têm medo de chegadas e partidas) e está disposta a toda e qualquer mudança que a vida lhe oferecer, também pode ser alvo do fatídico julgamento. Porque ela é mulher, né? Quer sentir segurança no relacionamento e isso vai pesar a hora que ela sossegar o facho. Quem sabe não se aquieta com o namorado, passa em um concurso público e “dessa vez vai”?

Feliz?

Talvez seja difícil de entender para os que julgam (eles não fazem isso por maldade, mas isso é assunto para outro texto) que não é bem assim. Não conseguem ver que o cara hipotético de trinta anos pode ser um artista e que a prisão de crachá e ponto pra bater pode acabar com sua criatividade. Não veem que essa jovem hipotética sofria e adoeceu por estar em um lugar que não acredita. Não percebem que estar em relacionamentos que os colocam em contradição com o que entendem de liberdade os transforma em bombas-relógio. Sim, pessoas desconformes são bombas prestes a explodir, ter ataques de raiva, cair em depressão.

Estou falando dessas pessoas hipotéticas, mas também das que conheço. Amigas e amigos pagando preços altos em nome de algo que julgam necessário. “Já estou com trinta anos e ele é um cara legal”, diz uma amiga que faz malabarismos para aceitar e ser aceita nos abismos de diferença entre ela e o namorado. “Quero namorar, porque quero casar e é isso o que vou fazer”. “Já conheço ela, talvez seja mais fácil”. “É, agora sou pai, não dá mais pra ser aventureiro”. Amigos que olho com certa dor de ver as bombas que estão se transformando. Parecem aqueles painéis de foto, de colocar o rosto, sabe? Têm toda uma ideia cristalizada do ideal e vão encaixando pessoas, lugares e coisas nas expectativas.

Me encaixando em uma galinha. Ficou bom?

Me encaixando em uma galinha. Ficou bom?

E o problema maior dessas tentativas de encaixe é que é desleal. Com você e com tudo que está sendo encaixado. No começo até parece divertido, mas com o tempo a gente percebe que tem alguma coisa errada ali, que aquilo não é exatamente uma galinha ou qualquer outra coisa que você queria que fosse. É o que é. Um artista está para um burocrata, assim como eu estou para uma galinha nessa foto: é desconforme. Insistir no encaixe é muito sofrimento.

A pessoa pode até estar conforme os padrões, mas se há desconformidade com o que se é, o que se quer, dá pra dizer que há estrutura? É possível que o artista burocrata e a jovem de sorrisos demagogos tenham alguma estabilidade? Bom, não consigo dizer que bombas são estáveis. Começo a achar que tem muito andarilho no mundo mais estável que boa parte dos executivos “de sucesso”, ou artista de rua que oferece uma estrutura muito mais sólida do que se fosse celebridade.

Dá até pra tirar fotos bonitas, engraçadas, mostrar para os amigos. Mas as contradições e incoerências estão ali, paisagem nenhuma esconde. Pesam, se transformam em sintomas, em desespero. A gente desespera e vai se afastando cada vez mais. Porque dói. Romper dói. Quebrar paradigmas dói, dá medo.

Tenho me inclinado a pensar que essas ideias cristalizadas nos deixam cada vez mais sozinhos. Elas são formadas o tempo todo pelo que a sociedade tem de mais estrutural. Quem tem medo de romper para de olhar e vai só reproduzindo. Não é à toa que a família feliz dos comerciais é branca, hétero, cis, classe média e consumista.

O presidente uruguaio, José Mujica, fez um discurso lindíssimo na Assembleia Geral da ONU essa semana. Criticando o capitalismo, ele disse:

(…) “o deus mercado, que organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos a frustração, a pobreza, a autoexclusão”

(…) “é contra os ciclos naturais, contra a liberdade, que supõe ter tempo para viver, (…) é uma civilização contra o tempo livre, que não se paga, que não se compra e que é o que nos permite viver as relações humanas”

Olha-se para o “deus mercado”, para a família do comercial e afastamos as relações e o contato com aquilo que não está em coisas ou encaixes. Nos distanciamos dos encontros, da humanidade. Acreditamos precisar dos encaixes e fugimos do que talvez doesse. A ideia de felicidade capitalista é vendida assim e paga-se muito por ela. No final das contas, é para manter o status quo. É só pela foto.

E me encontro assim, aproveitando e pensando, compromissada com a felicidade, ainda que doam os rompimentos. Chamam de instabilidade. Eu chamo de liberdade.

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Geleia de amores fáceis

Duas caixas de morango cheias na geladeira, bem madurinhos, a pouco de estragarem. Mas sabe como é, eles são tão sedutores… Minha mãe deu a ideia: por que não faz geleia? É fácil e gostoso.

Gostoso e fácil? Gosto assim. Acatei a ideia e fui correndo para a cozinha. Logo eu, que não tenho intimidade alguma com utensílios e alimentos. Sabia, de ouvir falar, que na geleia só ia fruta e açúcar. E, sem nunca ter visto, nem procurado na internet (como absolutamente tudo que cozinho), peguei uma caneca de alumínio, lavei os morangos, cortei sem qualquer ordem ou padrão e liguei o fogo.

Assim que começou a esquentar, olhei para o lado e vi o restinho de vinho tinto da noite anterior que havia sobrado na garrafa. Dizem que vinho é mágico e eu acredito. Joguei o tantinho na caneca e me surpreendi com o aroma maravilhoso que se espalhou pelo apartamento. Mexer bem era a ordem, só não me recordo de onde veio essa informação.

Mexi bem até que o morango já tivesse soltado bastante água e se unificado com o vinho. Hora do açúcar. Coloquei um pouco, mexi, coloquei mais um pouco, mexi de novo e mais um pouco. Achei que fosse suficiente, não queria que ficasse muito doce. A quantidade? Umas três colheres de sopa, talvez. Mexi até a hora que pensei: é uma geleia. Desliguei o fogo, peguei o mixer e, na caneca mesmo, dei uma batida bem rápida. Coloquei no pote e mal consegui esperar esfriar. Estava uma delícia.

Eu fiquei perplexa com o resultado. Tão fácil e tão gostoso. Como algo simples, guiado somente pela minha intuição e desejo poderia dar tão certo? Entendi que essa é a graça da geleia, o resultado não poderia ser diferente. Eu, movida por vontade e carinho. O morango estava disponível e se entregou. Ele gosta de ser morango, mas sentiu que já era hora de deixar rolar o que a vida tinha a oferecer. Nos encontramos, foi bom para nós (e para quem mais quisesse desfrutar).

Não que o que a vida traz de desafio não seja bom também. Mas o prazer não demanda coisa alguma. Não é preciso barreira, conflito, medo ou receitas. Quando há disposição, o resultado só pode ser fácil e gostoso.

E meus amores, digo, geleias, são assim: simples e sem rótulos.