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Maria e João

Maria, 35 anos, casada com João, de 40. Maria, oprimida pelo patriarcado, com todas as referências de vida de opressão, se submeteu ao machismo de João. Afinal, era um bom homem, as pessoas gostavam dele, tinha um bom emprego. Tiveram filhos, como se espera na sociedade. João começou a beber e, alcoolizado, a agredia toda vez que chegava em casa. Antes disso, já dizia absurdos, que ela minimizava com desculpas esfarrapas: “ele deve estar estressado”, “a comida realmente não estava boa”. Afinal, é dolorido reconhecer que o príncipe na verdade é vilão. Depois que as agressões físicas começaram, a Assistente Social da empresa em que Maria trabalhava, fez uma visita na casa dela, para investigar a origem dos hematomas. Infelizmente, a Assistente Social, distante da realidade, inconsciente das diversas configurações das violências, viu um pai carinhoso com os filhos e achou que estava tudo bem. “Ele é um bom pai, ao menos”, concordou Maria. Mas João não deixou barato e coagiu que Maria abandonasse o emprego. Não precisavam, ele ganhava bem. Ela, fraca demais para se opor, cedeu. Dois anos se passaram e ela decidiu dar um basta. Não suportava mais aquela situação. Tirou do fundo da alma o restinho de força que lhe sobrara, juntou algumas roupas, pegou os filhos pelas mãos e saiu de casa. Não sabia o que fazer. Sabia que havia algo de errado ali, mas como interromper aquilo? Lembrou que um dia viu na TV sobre uma tal de delegacia da mulher, achou que devesse ir ali, afinal, era mulher. Entrou na primeira que viu em sua peregrinação e, um grupo de homens com olhares inquisidores disseram que não era ali que deveria estar, passaram o endereço da tal delegacia da mulher. O local era longe, teria que pagar passagem de ônibus, mas não tinha dinheiro para isso. Sentou-se na calçada com os filhos e começou a chorar. A noite foi caindo e as crianças, desesperadas de medo, frio e fome, choraram também, pedindo para voltar pra casa. Ela, como boa mãe que a sociedade espera, voltou. João acolheu as crianças, mas Maria apanhou a noite inteira. No dia seguinte, pediu ajuda a uma vizinha, que, assustada com os ferimentos, a acompanhou até o Pronto Socorro do bairro. Lá, as enfermeiras já compreenderam logo no primeiro atendimento e acionaram o Serviço Social do local. Essa Assistente Social, muito mais sensível que a outra, já entrou em contato com instituições de Defesa da Mulher, que a encaminharam para um abrigo sigiloso para ela e as crianças, recebeu orientações dos profissionais, atendimento psicológico, foi inscrita em um programa de transferência de renda para que não dependesse mais financeiramente de João e um programa de capacitação profissional. Maria começou a ver outros caminhos possíveis, sem ter que voltar pela estrada marcada em seu corpo.

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O riso dos mesmos

Humor pra rir. Rir pra ser feliz, porque a gente tem mais é que ser feliz!

Pera. Calma. Vamo devagar, porque tem boi nessa linha. E é um boi perverso, digo, é uma perversidade que se esconde na sombra do humor. Se esconde atrás da neblina de hiperventilação que o riso causa. E o humor é perverso à medida que destaca diferenças, defeitos, erros ou outros conceitos baseados em padrões hegemônicos.

Padrões hegemônicos = regras, conceitos, definições do que é certo baseadas nas ideias dos grupos dominantes política, econômica e intelectualmente.

E aí, a gente pode pensar: não existe humor? Estamos fadados à patrulha do politicamente correto? Que mundo sem graça. Me dá meu Rivotril.

Vejam, eu fiz uma piada. E ela pode ter sido bastante perversa. Porque eu sei bem o quanto sofre alguém que depende de um remédio de indicação psiquiátrica. E por ela, peço desculpas. Usei de exemplo para começar a falar desse assunto por um viés diferente.

Falar do humor pelo viés do amor. Falar do riso dos mesmos, que ainda e ainda riem das mesmas coisas e oprimem os mesmos grupos e alardeiam as mesmas velhas ideias. E aí, fizemos assim, em forma de aforismos mesmo, beijo.

Vem comigo.

O único humor que não é perverso é aquele que revela as contradições.

Não é engraçado rir de alguém que está sofrendo. Mas pode ser engraçado rir de alguém que está fazendo algo absurdo e que contradiz a lógica.

Quem ri de alguém que está sofrendo, não quer a felicidade dela/dele. E aí, por não querer a felicidade das pessoas, apelam e reforçam as situações que geram sofrimento nelas.

Quem ri do outro, alardeia que possa ser verdade que as diferenças sejam desqualificantes. Eles reproduzem e fazem a manutenção das opressões. E as opressões são fonte de sofrimento.

Então, as piadas “fóbicas” são, na verdade, a comemoração do sofrimento alheio. Porque não é possível que alguém que destaque jocosamente uma situação vivida pelo outro, não identifique que há sofrimento ali.

Seria como tentar rir de um pizzaiolo porque ele joga a massa da pizza para cima enquanto a prepara. Não há percepção de humor em desqualificá-lo por essa ação.

E não há felicidade em rir do sofrimento alheio.

Quem ri de quem sofre, odeia a pessoa destacada. E então se odiaria naquela situação também.

Inclusive, contemplando a possibilidade de se odiar, seu amor próprio não é incondicional, logo não é amor.

Porque amor só é se for incondicional. Não é possível que as pessoas não vejam isso. Se você impõe uma condição para amar, você não ama, você controla ou quer controlar. O amor só é se for livre.

E você não é obrigado a amar as pessoas. Mas isso só denota o quanto você se ama ou não. Porque se você não se amaria na condição delas, logo, admite a possibilidade de não se amar. Se você admite a possibilidade de não se amar, você não se ama por inteiro. Porque amor e desamor não convivem, se anulam.

Tente rir do que realmente tem graça. Isso é uma proposta, um desafio. Tente amar e ainda assim ver humor. Talvez você chegue mais perto da felicidade.

*O texto foi escrito em uma unidade de pensamento incrível por Isabela e Danilo. O título faz referência a este documentário aqui, ó: https://www.youtube.com/watch?v=PRQ1LuBWoLg